Faculdade do Futuro

Faculdade do Futuro: Como Será o Ensino Superior Daqui 20 anos!

Ouvimos falar do futuro desde que o mundo é mundo. Em alguns aspectos ele chegou e já ficou distante novamente. Em outros, ele nunca saiu do imaginário. É difícil definir em qual desses grupos a faculdade do futuro se encaixa, mas algo é inevitável: admitir que muita coisa já mudou no cenário do ensino superior.

Os seus pais, provavelmente, não utilizaram um aplicativo para conferir o número de faltas e as notas que eles tiravam nas provas. O material deles, com toda certeza, não se resumia a um notebook e a uma caneta. Ah, e Ensino a Distância (EaD) a partir do uso de vídeos e de outras estratégias que dependem da internet? Isso devia parecer loucura na época – ou sequer se pensava sobre isso. Portanto, sabemos que o ensino superior está sim se transformando. A questão é: o que devemos esperar da chamada faculdade do futuro?

As mudanças para chegarmos à faculdade do futuro já começaram

Em 2010, a Revista Exame apresentou uma matéria com o seguinte título: “Como serão as universidades em 2020?”. Será que os especialistas acertaram na maioria das suas apostas? Será que agora é possível projetar como será a faculdade do futuro em 2040 ou em 2050, por exemplo? Podemos adiantar que sim. Basta ver alguns dos comentários feitos naquela matéria de 2010.

A reportagem da revista Exame citou, por exemplo, Julio Cezar Durigan, vice-reitor da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Ele projetou, durante  o 1º Ciclo de Debates com o tema “A universidade pública brasileira no decorrer do próximo decênio”, que em 2020 o ensino a distância e os intercâmbios seriam intensificados. Naquela ocasião, ele disse ainda que a interdisciplinaridade iria crescer nas Instituições de Ensino Superior (IES).

Ele acertou! A interdisciplinaridade ainda engatinha em alguns lugares, mas já está ganhando notoriedade. Portanto, o cenário que os estudantes irão encontrar daqui 20 anos já começou a ser desenhado. Para compreender as mudanças que estão em andamento e as que estão por vir, todavia, é importante entender a atual realidade educacional.

A internet e as tecnologias ligadas a ela ainda são as maiores influenciadoras das mudanças da atualidade. Por meio da rede mundial de computadores, as instituições de ensino facilitam as logísticas administrativas. Com isso, os docentes e alunos estão realmente conseguindo se dedicar mais à pesquisa e à inovação, assim como projetou Durigan no evento sobre a faculdade do futuro em 2010.

Com o ensino a distância, por exemplo, mais pessoas estão conseguindo entrar na faculdade. Essa popularização é explicada tanto pelo acesso ao ensino em localidades sem infraestrutura universitária, devido ao horário flexível de estudo, quanto por essa modalidade de ensino ser mais barata que a presencial.

Além disso, segundo um estudo realizado pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), em 2023 a expectativa é que mais alunos se matricularão em cursos da modalidade de ensino a distância (EaD) do que nos cursos presenciais. Hoje, o ensino EaD já corresponde a uma parcela importante dos alunos matriculados no ensino superior no País, mas a expectativa é que daqui 20 anos essa modalidade tenha uma abrangência ainda maior no País.

A expansão do ensino prevista para a faculdade do futuro

No Brasil, o acesso ao ensino superior é um grande desafio educacional. Tanto isso é verdade que oPlano Nacional de Educação (PNE) incluiu, entre as suas 20 metas, o objetivo de aumentar o percentual de jovens de 18 a 24 anos matriculados em programas de nível superior. Atualmente, apenas 18,1% deles estão nessa condição, mas a expectativa é que esse indicador chegue a 33% até 2024.

Os cortes feitos no Fies, programa de financiamento do ensino superior do governo federal, e a crise econômica fizeram com que o número de matrículas no ensino superior caísse em 2016, algo que não acontecia desde 2009. Entretanto, o Censo da Educação Superior de 2017 apontou uma melhora dessa situação, verificada somente nos cursos a distância.

Nesse cenário, o desafio de inclusão que se apresenta às universidades é impressionante. Segundo oPortal University World News, há mais de 150 milhões de estudantes universitários no mundo no momento – e a expectativa é que esse número praticamente dobre por volta de 2034.

De acordo com o livro “A Universidade do Futuro”, do escritor Luiz Roberto Giorgetti de Britto, o poder público não tem condições de bancar esse crescimento em função das muitas outras questões com que se defronta.

Essa avaliação é confirmada pelo Portal University World News, que apresenta dados que mostram que os gastos do governo com o ensino superior (em relação a todos os gastos em educação) estão diminuindo. Por exemplo, os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) registraram uma média de 75% de gastos em 2000, comparados a apenas 69% em 2011.

Diante da projeção de que o Estado não poderá financiar a expansão do sistema de ensino superior brasileiro, o imenso desafio quantitativo poderá ser alvo de uma redefinição da educação superior, segundo Britto. Essa redefinição, conforme o especialista, começa pelo ensino a distância, que utiliza recursos da tecnologia da informação e se mostra, dessa forma, uma alternativa viável e potencialmente eficiente.

Apesar do crescimento dos cursos EaD, Britto afirma que o ensino presencial continuará sendo fornecido e priorizado pelas faculdades. A modalidade presencial terá, na opinião de Britto, com as mudanças esperadas para as próximas décadas, um papel cada vez maior na formação geral de profissionais de alta qualidade. No entanto, para ele, a educação a distância permitirá um crescimento do sistema sem expansão física, o que parece uma solução necessária e inevitável.

Por sua vez, o Portal University World News acredita que, como os governos diminuirão o investimento no ensino superior, a contribuição financeira dos estudantes para sua própria educação irá aumentar rapidamente. Isso será reflexo, por exemplo, dos benefícios concedidos pelas empresas para quem tem ou deseja ter um diploma.

Perspectivas para a faculdade do futuro: a Educação 4.0

A tendência do ensino a distância chegou para ficar e irá se expandir ainda mais no futuro. Entretanto, essa não é a única tendência em crescimento. Vamos ver outras apostas dos especialistas para como será o processo de aprendizagem no ano de 2040.  

Na prática, a adequação das Instituições de Ensino Superior já está em curso. A nova era do aprendizado é uma realidade em diversas instituições ao redor do mundo. Impulsionadas pela tecnologia, as universidades estão adotando modelos inovadores de aprendizagem.

Os pilares desses novos modelos são a personalização do ensino, a estímulo à experimentação dos alunos e a combinação entre a sala de aula e o aprendizado estimulado pelo ambiente online. Esse movimento está sendo chamado, segundo o portal Desafios da Educação, de Educação 4.0.

A nomenclatura 4.0 está aparecendo com cada vez mais frequência. Esse termo significa, segundo o portal Desafios da Educação, a identificação de fábricas inteligentes que empregam recursos inovadores em seus processos produtivos. Entre as tecnologias que fazem parte da nomenclatura 4.0 estão a Inteligência Artificial (IA), que compreende a capacidade de uma máquina simular o raciocínio humano, e a Internet das Coisas (IoT, na sigla em inglês), sistema que conecta qualquer equipamento e objeto à internet.

Estudiosos da Educação 4.0 acreditam que essas e outras tecnologias conseguem auxiliar na aplicação dos melhores métodos para o desenvolvimento de cada aluno. Essa personalização e curva de aprendizado ocorre conforme ele interage com o sistema de aprendizado utilizado pela instituição de ensino.

O design dos videogames e a lógica das redes sociais também são elementos que colaboram para a criação de novas estratégias de ensino. A ideia central dessas práticas é direcionar esses recursos para valorizar a experiência de aprendizado do estudante.

Ou seja, na faculdade do futuro o aluno irá “aprender fazendo” (ou “Learning by Doing”, na expressão em inglês). Esse modelo de aprendizado prioriza o autodesenvolvimento do aluno e a construção de valores, conhecimentos e habilidades a partir da vivência de diferentes atividades.

A ideia da Educação 4.0, portanto, é desenvolver a integração de abordagens on e offline para criar um ambiente propício à educação alicerçada na experiência. Por isso, ela vai além da simples inserção de smartphones e computadores na sala de aula. O Ensino Híbrido propõe o uso conjunto de recursos que realmente estimulem as habilidades digitais e a inteligência dos estudantes.

Entre as instituições de ensino brasileiras, a Universidade Estácio de Sá, por exemplo, é uma das que já entendeu que incentivar as habilidades dos universitários é o segredo para estudantes prontos para o futuro. Com isso, a instituição oferece o programaStartup NAVE, que funciona como uma pré-aceleradora de startups.

A Startup NAVE foi criada com o intuito de fomentar o empreendedorismo entre os alunos, ex-alunos e egressos através da capacitação e de encontros com profissionais renomados no segmento, os quais trabalham com esse público por meio de mentorias.

Ensino + pesquisa + empreendedorismo = faculdade do futuro

Henry Etzkowitz, pesquisador da Universidade de Stanford, comentou em entrevista para a Época Negócios que as universidades desempenham papel de protagonistas no desenvolvimento de novos produtos e ideias em um país. Para ele, a faculdade do futuro será definida através do conceito de hélice tripla (“triple Helix”, na versão em inglês).

Os membros da tríplice hélice são: os governos, as universidades e o setor privado. Para que haja a integração entre essas três partes, argumenta Etzkowitz, são necessários governos inovadores, indústrias high tech e universidades empreendedoras.

Na opinião do pesquisador de Stanford, deve ocorrer uma integração ainda maior entre os membros da hélice tripla no prazo de 20 anos. “As universidades terão uma nova estrutura, que unirá o ensino, a pesquisa e o empreendedorismo”, vislumbra.

Para ele, as instituições educacionais irão funcionar como incubadoras, recebendo incentivos governamentais e fazendo investimentos na criação e na acomodação de startups em busca de novas ideias, assim como faz a Estácio hoje.

No quesito ensino, razão pela qual nasceram as universidades, Etzkowitz acredita que esse aspecto continuará fundamental, enquanto a estrutura de transmissão do conhecimento e de formação dos profissionais tende a mudar. “O ensino de conteúdos diferentes à matriz principal do curso do estudante permitirá às universidades formar profissionais mais preparados para o mundo. As aulas, por sua vez, tendem a ser virtuais, integrando presença online e offline”, projeta.

Cinco tendências para a faculdade do futuro: o que esperar em 2040

O portal americano Open Innovation.eu elencou 5 tendências para o futuro universitário. Confira um resumo dessa projeção feito pelo portal em relação à faculdade do futuro:

1. Polos globais de inovação

Como consequência do processo crescente deurbanização, as universidades passam para a era do campus global. Nesse formato, uma universidade que se concentra na inovação e no empreendedorismo vira o centro de um ecossistema regional que valoriza o conhecimento.

2. Digitalização

A tecnologia mudará a paisagem da educação para sempre. A aprendizagem online é apenas o primeiro sinal de uma mudança que promete ser notável na educação. O futuro irá contemplar a aprendizagem exponencial através do Big Data, da ciência aberta e dos jogos.

3. Desmembramento

Desmembramento é a tendência para uma educação modular e mais personalizada. Essa tendência marcará uma mudança em direção a um conjunto de talentos mais global, incluindo educação acessível, compartilhamento de bens comuns intelectuais e de bens comuns globais.

4. Aprendizagem ao longo da vida

A aprendizagem ao longo da vida resolverá o descompasso contínuo entre a educação e o mercado de trabalho. As universidades começarão a oferecer uma educação mais personalizada e voltada para a solução de problemas da evolução desse mercado.

5. Mudança econômica

Em um futuro próximo, os governos em todo o mundo reduzirão cada vez mais os investimentos no ensino superior e as universidades se tornarão mais privatizadas. Globalmente, existem diferenças nas necessidades do mercado de trabalho para os funcionários com um grau de ensino superior, o que ajudará a definir o tipo de ensino que será oferecido em cada país e região.